terça-feira, 27 de setembro de 2011

cabo a luz


No começo do corredor treme as pernas
Vejo a vela acesa que, aposto, foi mamãe
Faltou luz pela manhã, e até agora não voltou
Se penso o porquê de estar aqui, o começo do corredor
Me perco, afinal eu penso que com medo não se pensa
E vejo as três portas que me separam do fim
E então, as escadas, porém, as entreabertas, amedrontam
As portas, claro, com suas sombras disformes
E posso correr, ou cautelosa pé por pé ir aonde quero
Sem acordar ninguém, sem fazer ruído
Sem barulho nenhum nesse mundo de escuro
No primeiro passo lembro do quadro ilustrado tipo Doré
Não parece, mas diz quem vendeu ser assim: no mesmo estilo
Tem a cabeça de um lobo presa na boca de uma menina
Ironia? Ou não, vai saber o que acontece lá fora
Na primeira porta, é banheiro, e a torneira pinga certo
Mas só se escuta, porque não se enxerga nada
Entre a primeira e segunda porta, um relógio
Esse sim, tiquetaqueia quebrando o silêncio
Desmedindo meu passo, desmedindo meu passo
E eu acabo pensando, que diabos eu faço aqui
São três em e quinze, e se mamãe acordar?
Mas já não podia parar, a terceira porta é o deposito
Tem bola, cadeira de praia, som portátil que não funciona o cd
Essa vive fechada, e continua assim
Entre essa porta e a última tem a flor lilás
Que durante o dia é cheirosa, mas no escuro dá frio
E ai vem a terceira porta, medonha, entalhada a mão
Com pássaros nas bordas, asas abertas, curvadas
Esse é o quarto de dormir de quem nunca dorme
E com sorte estaria fechado, não estava
Mas se ouvia o ressonar, varando suave o soslaio
E o sorriso veio ficar estático no meu rosto
Agora faltavam as escadas e eu poderia ver o luar do quintal...

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