terça-feira, 22 de novembro de 2011

Chove, mas de manso

Chove, mas de manso
Lucas Selau


Tá chovendo, quando não chove se reclama
Clama um pingo d’agua, dona Maria desesperada
Chove! Chove, por favor senhor sentado em nuvem
Desagua...

Tá chovendo, ai se venta, pronto, povo inventa
Diz que tem tufão, furacão, redemoinho, vizinho voando
Chove! Mas chove devagar, de manso, dona Maria que pediu
Chora céu...

Tá chovendo dona Maria! Eu gritando pra vizinha
Vê se pode, ela acabo de sair correndo, atucanada
Acode!, recolhe as roupas aqui menino, ajuda
Só um pouquinho chuva...

Tá chovendo! Não tem vento, e dona Maria reza
Sempre se desespera com medo de temporal
Passa mal de tomar remédio, dormir cedo, e eu
Eu morro de tedio quando chove...

terça-feira, 27 de setembro de 2011

cabo a luz


No começo do corredor treme as pernas
Vejo a vela acesa que, aposto, foi mamãe
Faltou luz pela manhã, e até agora não voltou
Se penso o porquê de estar aqui, o começo do corredor
Me perco, afinal eu penso que com medo não se pensa
E vejo as três portas que me separam do fim
E então, as escadas, porém, as entreabertas, amedrontam
As portas, claro, com suas sombras disformes
E posso correr, ou cautelosa pé por pé ir aonde quero
Sem acordar ninguém, sem fazer ruído
Sem barulho nenhum nesse mundo de escuro
No primeiro passo lembro do quadro ilustrado tipo Doré
Não parece, mas diz quem vendeu ser assim: no mesmo estilo
Tem a cabeça de um lobo presa na boca de uma menina
Ironia? Ou não, vai saber o que acontece lá fora
Na primeira porta, é banheiro, e a torneira pinga certo
Mas só se escuta, porque não se enxerga nada
Entre a primeira e segunda porta, um relógio
Esse sim, tiquetaqueia quebrando o silêncio
Desmedindo meu passo, desmedindo meu passo
E eu acabo pensando, que diabos eu faço aqui
São três em e quinze, e se mamãe acordar?
Mas já não podia parar, a terceira porta é o deposito
Tem bola, cadeira de praia, som portátil que não funciona o cd
Essa vive fechada, e continua assim
Entre essa porta e a última tem a flor lilás
Que durante o dia é cheirosa, mas no escuro dá frio
E ai vem a terceira porta, medonha, entalhada a mão
Com pássaros nas bordas, asas abertas, curvadas
Esse é o quarto de dormir de quem nunca dorme
E com sorte estaria fechado, não estava
Mas se ouvia o ressonar, varando suave o soslaio
E o sorriso veio ficar estático no meu rosto
Agora faltavam as escadas e eu poderia ver o luar do quintal...

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

domingo


A sombra da minha mão virou pássaro
E bateu assa em direção ao leste
Fez curva em uma nuvem
E se chocou com sol e lua

Ficou claro que era dia de domingo
E que o tedio era remédio do cansado
E que a chuva não viria tão cedo
E que ver nuvens não era coisa de passado
E que deitar na grama era a saída mais simples
Melhor do que ficar escrevendo péssimas poesias

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

para um beat que conheço


-minhas pernas
                     para Lucas Selau

Minhas pernas pararam no meio da avenida literária
No meio da concepção, no meio do texto, no meio
A morte veio atenuar o lírio mais triste daquele canteiro
E agora jazido entre outros lírios, descansa
A morte, a morte, a morte, a morte, a morte dezembro
Chegou sobre os telhados em surreais datas de solstício
E teima em voltar a forma menestrel do eu lírico
Que canta só a morte em papel de presente
Com fitas fúnebres, com cheiros fúnebres, com o ternos fúnebres
Minhas pernas paradas naquela av. Solomon
Berço ungido, onde caminhavam todos para o Beat Hotel
Ou sapateando sobre as cobertas de concreto de Apollinaire
Ah! minhas doces pernas formigantes, sob o escaldante dezembro
Como queria te descansar nas praças, ou nas camas alheias dos que passam
Com as janelas abertas, dando passagem a quem entrasse
Mas eu caminho, minhas pernas, caminho como a morte que acompanha
Logo, versos de temor, cansaço e adeus serão um só
Morte, morte, morte, morte, morte dezembro
Vai oferecida em calçadas afuniladas
Vai oferecida em outra sola gasta
Sendo, sendo, sendo morte dezembro
Uma surpresa exata, que todos esperam
E ainda sim se desesperam quando desenrolam as ataduras

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Dolly

me clonaram!?
tipo ovelha e ratos
o mesmo que eu sinto
o mesmo que eu faço
ela faz... me clonaram

os meus olhos cegos
meus sorriso sincero
meu jeito de mundo
enfim, me clonaram assim
sem permissão nem nada

cientistas pederastas de uma figa
se no fosse agnóstica jogava deus em vocês

um poema beat a quem é beat


faz de conta
mas não enrola
que todo dia é sábado
cabeça, cabeça...

um copo de vinho,
não, melhor,
uma garrafa
algumas horas
e pronto

             O cantor de rua está mal,
recurvo ao pé da porta, aparando o peito.
Um canto a menos no rumor da noite.

tudo mingua
a noite mingua
é dia de aurora
não enrola,
                bebe esse uísque

plana o pensar
pequeno e ínfimo
em busca do riso mais cárdico
mais pulsante, o mais vulgar
                       putas
                               pederastas

             O cantor de rua está mal,
recurvo ao pé da porta, aparando o peito.
Um canto a menos no rumor da noite.

faz de conta
que termina aqui
                o tempo das prosas
até o bêbado cantarola
um pouco de Corso nos nossos ouvidos

e de uma hora pra outra
termina a vida
como o próprio diria

             A morte chora porque a morte é gente
perdendo o dia num filme enquanto morre uma criança.